Anna Kahn (E06-T02)

Resenha

Transcrição

Anna Kahn desde o começo da sua carreira sempre esteve presente em grandes exibições de fotografia ao redor do mundo. Fez trabalhos voluntários, fotografia documental de realidades do Brasil, fez parte de exibições sobre direitos humanos e mostrou seu talento com vídeos e documentaries com visibilidade internacional. Hoje, Anna trabalha no Rio de Janeiro e é representada pela Galeria Tempo, em Copacabana.

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A fotografia é forma como eu me relaciono com o mundo na verdade, ela me dá um lugar no mundo ela me permite ir a qualquer lugar falar de qualquer tema e conhecer todo o tipo de pessoas, então de fato a minha relação com o mundo existe através da fotografia, ela enfim, eu estou sempre fotografando, mesmo sem câmera, com os olhos eu estou sempre pensando em histórias que eu posso contar através da fotografia, eu me considero uma contadora de histórias, então é o meu trabalho justamente construir narrativas visuais inspirados, inspiradas em temas diferentes enfim, que pode ser violência, ou um esquecimento, ou um lugar.

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Cada trabalho na verdade abre portas para um mundo inteiramente diferente para mim, eu posso ir para Belém e mergulhar sabe num universo totalmente diferente do meu para retratar uma história, como eu fiz recentemente, eu ganhei um, eu ganhei o prêmio Marc Ferrez de fotografia e propus fazer um deslocamento para uma cidade que eu não conhecia, eu chamei esse projeto de “Sem Medo Do Escuro”, porque o escuro é justamente esse mergulho no desconhecido, esse mergulho no abismo, especificamente no “Sem Medo Do Escuro” o que me interessava muito era o processo, era o processo criativo, era a ideia simplesmente de propor um deslocamento para uma cidade que eu não conhecesse sem saber o que eu ia fazer,

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então essa foi a premissa, era estar livre para esse acaso e é claro que tem a ver com um trabalho anterior que foi um convite, um convite para uma residência artística na China, na região do Yuan é uma cidade chamada Daling é, para onde eu fui com uma ideia na cabeça e eu percebi que isso foi um grande erro, eu tinha uma fantasia da China especialmente dessa região que é uma região de montanhas, é uma região no Sul do Tibet eu aí eu resolvi, quer dizer, pensei, eu pretendia fazer um trabalho sobre o silêncio, eu estava lendo na época um livro sobre isso e achei que podia fazer alguma coisa inspirada no tema silêncio, quando eu cheguei lá eu vi que foi um equívoco muito grande, um grande erro e levei tempo para me recuperar, escolher uma outra,

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um outro caminho e escolhi uma coisa que fosse muito simples e também esse processos foi interessante, quase que não sei, de improvisar e de partir para uma coisa muito simples que eu não sabia para onde ia me levar, eu entendi que eu tinha feito um trabalho sobre esquecimento.*** Fotografia dá sentido à minha vida, eu acho que talvez nada possa ser maior do que isso né, quando eu penso em fazer um trabalho, por mais difícil e as vezes até por mais trágico que seja o assunto isso me dá energia e até pode parecer estranho, uma certa alegria né, que é a alegria da criação. Eu fotografo há mais de 20 anos

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Bala Perdida foi a minha primeira exposição no instituto Moreira Salles em 2007 portanto há 10 anos atrás e ela tragicamente continua atual,
olhando para aquelas imagens parece um trabalho muito simples e essa simplicidade ela foi proposital, as balas perdidas, quer dizer, você morrer de bala perdida é uma tragédia e isso de repente passa a ser cotidiano, como que uma tragédia pode ser cotidiano? São coisas que são inteiramente contraditórias, então essa banalidade eu busco nas imagens, as imagens são bastante parecidas, elas são todas verticais, elas sugerem que uma pessoa estava ali,

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as legendas são muito importantes porque situam quem é a pessoa, dão nome e não é número, não é estatística, eu dou nome as pessoas, é, então você tem “Mariana, 7 anos, indo para a escola com a mãe no Grajaú” aonde que a pessoa estava, o que ela estava fazendo e o lugar onde isso aconteceu, é de uma grande simplicidade mas quando eu comecei a pensar que eu queria falar sobre isso, não era talvez tão simples, porque você pensa “mas a bala perdida ela é imprevisível, ela vaia acontecer quando né, e a pessoa morreu” enfim,

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eu levei bastante tempo para encontrar também esse caminho e eu ia pros lugares onde tinha acontecido e eu fotografava e aí depois de 3 ou 4 idas à alguns dos lugares, que eu fazia um pesquisa na imprensa, eu entendi que era o vazio humano naquele lugar que na verdade corresponderia ao incômodo que eu queria causar. Em todos os meus trabalhos eu dou a minha opinião, eu acho que é, essa é a função do artista, contar histórias e a forma como você conta a história você sempre vai dar uma opinião, inclusive a história que você escolhe contar já diz muito de você, quem é você né, Por que que aquele assunto te interessa?

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Por que que a bala perdida me emociona? Por que que eu vou para Belém e me interesso em contar história de tráfico de seres humanos? Enfim, isso fala de mim mas isso também fala do meu tempo, isso fala do meu mundo, é e isso acaba dando sentido a minha vida. A fotografia ela é memória sim, ela é documento, ela é arte, criação, na verdade você escolhe, ela pode ser tudo isso ao mesmo tempo também, você pode simplesmente dizer “eu quero documentar uma coisa” ou “eu quero retratar uma situação” “eu quero mostrar um lugar” ou eu posso simplesmente trabalhar com a minha imaginação,

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pode ser simplesmente um exercício de imaginação o que é maravilhoso também, você pode trabalhar com humor, você pode trabalhar com tragédia eu acho que essa, essa riqueza né, você pode fazer tudo assim, você pode inventar o que você quiser, essa riqueza, essa liberdade é o mais maravilhoso da fotografia na minha opinião.

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