Custódio Coimbra (E08-T02)

Resenha

Transcrição

Custódio Coimbra é sinônimo de fotojornalismo. Fotógrafo desde os 11 anos, cresceu dentro dos laboratórios e há 20 anos está à frente dos fotógrafos do Jornal O Globo, onde retratou notícias que mudaram o rumo do país com a sensibilidade de um verdadeiro artista. Nessa união de vida e arte, sua carreira como reporter fotográfico foi contemplada com diversos prêmios que o consagraram como um dos maiores nomes da sua geração.

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Fotografia pra mim ela é meio que o elo que eu tenho com esse mundo que eu to vivendo, eu não me vejo de outra forma. Eu não fui formado em vestibular passei em engenharia, musica, belas artes, ciências sociais não completei nenhum deles mas a fotografia desde 11 anos ela meio que vem assim me acompanhando né.

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Fotografia pra mim hoje em dia ela representa meu contato com o mundo a forma com que eu reclamo com que eu agradeço estar vivo a forma como eu me vejo nesse momento né eu costumo dizer que eu faço parte de um grupo seleto de repórteres fotográficos que são poucas centenas mas que a gente pode dizer que a gente detém esse período visual. Estou com uns quase 30 e pouco anos de fotografia então essa ai...hoje eu olho pra essa fotografia me vejo assim um valor que vai agregando sabe ? uma foto que eu fiz a 30 anos atrás ela tem um valor pra mim hoje e pra quem a vê né porque ela deixa de ser aquela questão do fato do ato e tem uma abordagem mais social mais sociológica, antropológica são cenas, lugares que não existem mais são cabelos, modas e costumes que não existem mais.

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Eu vivia num período muito duro, foi no final da década de 70, ditadura ferrenha onde fotografar um monumento, mais de três pessoas, central do brasil era tudo proibido, e eu lembro que a fotografia me veio como uma forma de eu também de romper um pouco o couro desse contentes então pra eu fazer uma foto roubada eu tinha uma ela tinha um valor pra mim importante. Eu comecei a trabalhar em jornais alternativos, principalmente o jornal repórter que era um tabloide pasquim e que em 78 eu vi a manchete desse jornal na banca de jornal era assim “as fotos inéditas de 68” Dez anos depois um jornal pra você ver o grau de ditadura que a gente vivia em 78 o repórter deu as fotos inéditas de 68 e eu fui la e me ofereci pra trabalhar, já tinha essa bagagem de rua de fotografar muito e o fotojornalismo me acompanha, na verdade essa mudança do estético da composição ela passou a ter uma conotação de vida de pessoas de histórias. Eu lembro que nesse período eles lutavam pelas liberdades democráticas então minha fotografia era transportes urbanos a volta do exilados.

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Em 82 eu fui pra última hora, meu primeiro jornal de grande imprensa eu peguei o processo das diretas já então eu fotografava vivendo, ate hoje, claro, mas eu digo assim é...quer dizer o fotojornalismo ta dentro de mim, a forma como eu me expresso. É interessante você ver que tem um fio condutor que passa na bela foto aquela foto que antes de ver o que você estta, o que essa foto representa ela antes ela te bate, por isso que muitas vezes uma foto de uma tragédia as pessoas acham plasticamente bonita, tem um momento em que a construção dessa fotografia essa construção dessa fotografia vem com essa bagagem do olhar de cada um né? Da sua educação, da sua música, das suas influencias e o legal é que qualquer influencia você tem uma você chega a essa coisa do agradável né a fotografia que ela tem passa a ser...existe por uma coisa mais fortes.

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Na verdade a gente brinca com coisas serias né ...quer dizer o meu trabalho quando eu digo que é um grito de dor eu digo que é porque eu já fotografei chacinas já fotografei homem pegando fogo já fiquei entre bala ... em meio de tiroteio sabe? Já fiquei ... Estou vindo hoje de uma matéria que são pobreza infantil tive num lugar sinistro pra entrar, tive que colocar a máquina dentro da bolsa, atravessar, ir numa casa pra poder fotografar um drama que a cada dia ... eu vivo ganhando socos no estomago, eu vivo ganhando socos na cara essa é minha fotografia, eu sei que minha foto é boa quando depois que eu faço a foto eu percebo que eu estava com a respiração presa.

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Quando eu percebo isso depois eu sei que essa foto é legal porque também é uma formação uma construção. O que me impulsiona fotografar nada mais é do que esse registro desse momento que eu estou vivendo que é hoje é agora o melhor momento da minha vida é agora , não o que passou nem o que virá, então esse momento que eu estou vivendo a fotografia tem essa particularidade de você fazer um congelamento né ? e como eu gosto das coisas belas eu tento fazer dessa fotografia a mais bela possível então eu me preocupo com as diagonais me preocupo com os planos eu me ocupo em limpar qualquer fotografia pra mim eu tenho que sair limpando é aquela ideia né...clássica né o pintor sai do branco e constrói a pintura, a gente sai do caos e sai limpando pra construir uma fotografia né, a verdade é esse trabalho de limpeza .

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Eu costumo dizer que a fotografia a grande foto é como se fosse uma onda, quando você tinha 36 fotogramas num filme, sempre você tinha uma foto melhor que a outra e essa foto é justamente um exemplo como se vai a onda vem, vai se formando energia vai se formando naquela virada é o momento e essa foto é a foto que é onde a energia está contida, primeiro sem perceber, você não sabe o que que está ali ela te agrada ou não. Fiz um 74, eu vi o cara fazendo na cabeça da menina assim “uni-duni –tê a escolhida será você “ e eu com a 300mm apontada pro cara e ... são momentos decisivos na tua vida né ? E a gente vive assim, o fotografo vive assim o repórter fotográfico vive assim, vive na margem sabe? No limite, você sai nunca sabe pra onde, e eu estou indo pro jornal sem saber pra onde eu vou, sabe essa sensação assim “ pra onde eu vou hoje?” é uma coisa questionável, muitos gostam muitos não gostam por outro lado não consigo me programar muito por que eu sou muito mais do acaso sabe quer dizer eu procuro o acaso, o acaso não existe você tem que estar sincronizado com esse meio ambiente, é você sair na rua é você ir na missa e se comportar como indo na missão, é você ir num show de rock e você se comportar num show de rock vibração, então é essa vibração que cada lugar te permite estar, é uma busca que eu tenho que fazer independente de eu estar fotografando ou não quando eu to fotografando, mais ainda porque eu tenho que estar com o olho aberto pra saber da onde vem próximo... próximo tiro? Próximo grito? É uma coragem, o click é uma coragem.

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