Márcia Charnizon (E13-T02)

Resenha

Transcrição

Desde que descobriu a fotografia, como autodidata aos 13 anos, Márcia Charnizon vive e respira sua arte. Estética livre, expressões e manifestações pessoais dão o norte nas suas criações.

Seu primeiro projeto aconteceu em Israel e abordava o fluxo de migrações com foco na soma cultural dos povos que agora dividiam o mesmo espaço.

Quando voltou ao Brasil, Márcia abraçou a ideia de explorar artisticamente a diversidade cultural israelense, em uma união de música e fotografia, com olhar e vozes femininas.
Durante sua carreira, Charnizon participou de várias exposições e foi contemplada com grandes prêmios: Px3 – Prix de la Photographie Paris, em 2010/2011/2012 e 2013.

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Hoje eu trabalho essencialmente com retrato de família, então eu trabalho com imagens que vão ser ressignificadas, vão ser revisitadas em tempos diferentes, por pessoas diferentes e a cada momento que as pessoas revisitam essa imagem elas revisitam com o tempo presente, com a demanda do tempo presente, então são afetos que estão sempre sendo ressignificados, esse processo do retrato de família me encanta muito né, então já tem um tempo que eu to totalmente, como oficio e como dispersão pessoal assim, me interessada nesse viés da fotografia e acompanho famílias há muitos anos, então já já tive a experiência desse afeto ressignificado, essa coisa de ressignificar né, eu mesma tenho uma imagem, eu não conheci meu avô, eu tenho uma imagem dele me segurando toda feliz, essa coisa que manda as crianças pra cima né, a memória que eu tenho do meu avô é de um cara bacana, feliz, que tinha um carinho enorme por mim por causa dessa imagem, eu fiz um livro que é o Memorabília da Casa do Azevedo que tem uma cena que a personagem central do livro que é a Ávila, ela ta sentada e uma sobrinha passa correndo, uma criança e ela pega essa sobrinha rápido e coloca no colo e fala “senta aqui na tia,

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vamos fazer uma foto com a tia” e a Ávila tem uma questão mental não diagnosticada, tem cabelos grandes, unhas enormes, então as crianças tem um pouco de, elas querem ficar um pouco mais afastadas de Ávila e quando ela coloca essa menina, em um segundo eu fotografei, fiz essa foto, essa menina saiu, nunca mais eu vi essa menina e quando eu mostro essa imagem pra ela, o trabalho era exatamente eu fazia os retratos e depois eu projetava na casa, é a relação que ela tem com a imagem é a seguinte: olha que linda minha sobrinha, olha como ela é carinhosa com a tia.

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Então é uma imagem absolutamente importante pra ela, isso é sensacional, isso é o poder mágico da fotografia e o tempo ele precisa agir, e aí é um outro elemento bacana né, quando a imagem ela vai fazendo mais sentido com a ação do tempo, quanto mais o tempo age, mais aquilo se transforma, aquela imagem ela vai se transformando né, o retrato de família é isso, o álbum de família é isso, sensacional, sou apaixonada com essa história. Eu construí um estúdio dentro de uma área de um sítio familiar, eu nasci ali, aprendi a andar ali e papai era dono de loja de brinquedo, ele tinha um galpão de fogos, um galpão fino, grande, e eu construí meu estúdio dentro desse galpão, mantendo a arquitetura, que são janelinhas bem fininhas e uma arquitetura super bonita e eu comecei a fotografar teatro, lembra que eu falei assim do palco, eu não tinha um estúdio na minha trajetória, então quando eu construí o galpão eu já não tinha a história do estúdio, quando eu precisava do estúdio eu alugava, mas eu gostava sempre da locação, eu gostava da luz contínua, eu gostava ou da luz natural modificada, mas assim a caixa estúdio não foi a minha história,

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então eu quis criar uma locação, eu falava com os arquitetos, as paredes eram todas mofadas, então elas eram lindas para imagem porque era aquele mofo que ficava um cinza meio manchado, aquilo que a gente custa a fazer, compra tecido, compra lona, lá tava pronto e eu falei “eu não posso perder essa parede, eu não posso perder essa parede” e os arquitetos falavam “calma Márcia, você vai perder algumas coisas e ganhar outras” eu falei “não, eu não posso perder nada, eu só posso ganhar” e eles foram fazendo o projeto comigo de acordo com essas demandas assim olha, eu preciso de uma parede branca pra, né, é aonde, é o meu fundo a parede branca e que como eu trabalho muito com a luz misturando o flash com a luz natural essa parede se transforma em cinza, em preta de acordo com a luz que eu jogo no primeiro elemento né, no que eu to fotografando. Então virou uma locação, e o engraçado é que eu tenho um grande amigo que é designer, quando ele foi conhecer o estúdio há 15 anos atrás, ele olhou e ele falou “não Márcia, que legal que é aqui né, ficou muito legal e o estúdio é aonde?” aí eu falei “estúdio cara? o estúdio é aqui, o estúdio é ali, o estúdio é a locação, eu lá quero estúdio, eu quero ser livre”.

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Eu alimento o meu olhar com outras linguagens, as vezes eu falo que eu gosto mais de música do que de fotografia, então a música é uma referência muito grande pra mim quando as pessoas falam assim é “uma inspiração”, a primeira coisa que eu penso por exemplo, não é fotografia, a primeira coisa que eu penso é Dorival Caymmi, é muito doido isso, inspiração, Dorival Caymmi, como que uma pessoa, com uma coisa tão simples, com tão pouco consegue transmitir um universo? Sabe? artes plásticas é muito importante, o cinema é, eu me alimento vivenciando essas coisas, então eu gosto muito de não só, por exemplo, se eu to falando da música, não é só escutar a música, é também tocar, então eu também tenho uma coisa assim, então não é só, se eu to no teatro não é só ir no teatro, mas eu gosto de ver como que um ator, qual que é o processo de criação de um ator, eu adoro conhecer processos de criação de outras linguagens. Tem trabalhos que te trazem angustia né, tem momentos que você se sente muito angustiado com o seu trabalho, tem momentos que você se questiona muito, onde que eu to? pra onde eu vou? o que eu to fazendo aqui? que importância tem isso pra mim? que importância tem isso pro outro?

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Esses questionamentos, eu não to dizendo de um momento feliz né, to dizendo da vida né,a fotografia é uma experiência de vida pra mim, então a vida não é só feliz né. Você se abrir para outras linguagens eu acho muito rico, mas cada um tem seu processo também né, isso é comigo, não da pra falar, porque esse papo de “ah, você tem que ler muito livro, você tem que ver muito filme” cara, você tem que viver da forma que você ta impregnado né, pode ter um cara genial, né, no interior que nunca leu, que nunca, mas que tem um trabalho genial, não tem regra assim “putz o cara não sabe nem ler”, faz imagens geniais, por isso que eu acho que diz dessa conexão que a gente tem com a gente né, e que possibilita eu me conectar com o outro, então a minha fotografia diz disso.

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