Simonetta Persichetti (E02-T02)

Resenha

Transcrição

Muitos títulos acompanham o nome de Simonetta Persichetti: em 1979, foi Bacharel em jornalismo pela Faculdade Cásper Líbero. Logo, se tornou mestre em Comunicação e Artes pela Universidade Presbiteriana Mackenzie e doutora em Psicologia Social pela PUC (Pontifícia Universidade Católica de São Paulo).
Mas o título que coroa toda a paixão por sua carreira veio em 2010, quando foi considerada melhor crítica fotográfica do Brasil.

Conheça mais sobre sua trajetória na sua entrevista para No Olhar.

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Eu acho que a fotografia está cada vez mais importante, eu acho que com o passar do tempo a agente vê que ela é a grande narradora da história, o profissional que está realmente nos lugares onde as coisas acontecem é o fotógrafo, então hoje a história passa pelo olhar do fotógrafo, passa pelo olhar do vídeo também, porque as câmeras estão cada vez mais sofisticadas, elas filmam, então além da narrativa do olhar do fotógrafo tem também a fala dos participantes da história que são as pessoas que estão nesse mundo fazendo, sofrendo, ou modificando a história.

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Eu sempre costumo dizer que eu não escolhi a fotografia, foi ela quem me escolheu, e com o tempo ela se tornou fundamental na minha vida, porque se eu sou o que eu sou hoje, se eu leciono, se eu estudo, se eu penso, foi a fotografia e mais além, foram os fotógrafos que me trouxeram isso né, eu sou jornalista de formação, então eu sou uma pessoa ligada ao texto, eu escrevo sobre fotografia e quando eu comecei a escrever sobre fotografia na verdade eu queria saber justamente isso né, a potência da imagem fotográfica, como ela comunicava, como a gente poderia ter informação para além do texto, então eu devo o que eu sou hoje à fotografia, mas principalmente aos fotógrafos.

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Eu fiz cursos de fotografia, isso nos anos 80 quando eu já era formada em jornalismo e eu queria ser fotógrafa, e eu encontrei um fotógrafo que para mim é fundamental, que vocês gravaram uma entrevista com ele, que é o Sergio Sade né, então eu acho que ele é o meu mentor porque eu era uma garota de 20 anos, não que ele fosse mais velho, mas enfim, ela já era o editor da Veja na época e um dia ele falou pra mim “Simoneta, fotógrafos tem muitos já, porque você não escreve sobre fotografia já que você é jornalista?” Eu confesso que no primeiro momento eu resisti a isso né, até de uma forma um pouco dura, como qualquer adolescente “o que que esse cara ta falando pra mim?” mas depois eu acabei topando essa ideia, comecei a escrever sobre fotógrafos, e o que me diferenciou desde o começo é que eu raramente falei da técnica né,

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embora a técnica seja fundamental para a fotografia, eu comecei a querer entender quem era essa pessoa que fotografava, então eu sempre me destaquei um pouco por essa parte né, de pensar numa época que nem todos pensavam né, existia o Moraci De Oliveira, existia a Estefânia Abril, mas ainda no Brasil não se pensava muito a fotografia sobre esse aspecto do perfil do fotografo, acabei estudando, acabei entrando para a Academia, eu fiz mestrado, eu fiz doutorado, eu fiz pós doutorado... Tudo discutindo fotografia sobre esse ponto de vista né, sabendo que a técnica é fundamental mas sempre mais interessada no que que o fotografo queria dizer né,

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e que é um trabalho que tem por trás uma pesquisa, uma experimentação, independentemente se ele vai ficar para a história ou não né, mas tentar entender um pouco o que é essa linguagem todo mundo deveria estudar a história da arte, mas deveria saber história da fotografia, como ela nasceu, como ela se desenvolveu, porque que ela foi espelho do real, porque ela não pode ser mais vista, ou pode ser vista dessa maneira né, o que caracteriza o ato fotográfico, o fazer fotográfico, por que isso vai nos permitir entender e nos libertar, fora isso a fotografia ela está inserida no mundo então se você não tiver uma história das mentalidades, uma história do contexto histórico, porque que a gente está fotografando guerra de tal forma, porque que a gente está fotografando a natureza de tal forma, como é que isso está ligado ao momento que a gente está vivendo, então eu acho que você tem que ter um conhecimento amplo e acima de tudo nunca,

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nunca parar de estudar, de ler, é quase uma maldição, mas é também uma bênção né, essa coisa da curiosidade, do ler, ir atrás, porque hoje a fotografia está em tudo quanto é lugar e será que eu posso desvalorizar uma foto a priori? Será que a foto do facebook que a gente sabe que é feita de forma aleatória, não é a linguagem da contemporaneidade? Será que não será essa a marca que nós vamos deixar para os pesquisadores do futuro? Nós vamos simplesmente excluí-la ou vamos tentar entender o fenômeno? Né? Então eu acho que a compreensão do fenômeno é o que é fundamental para ser um crítico de fotografia, e história da fotografia, sem dúvida nenhuma. A facilidade hoje que existe de se fazer um vídeo em relação a 20 anos né,

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então hoje a tua câmera fotográfica ela filma e com altíssima qualidade e eu acho que ai internet é uma linguagem rápida, ágil, então o vídeo ele casa muito bem com essa linguagem do digital, da internet, virtual, o nome que você quiser dar... O mundo pede esse sucedâneo de imagens, o mundo pede essa forma de comunicação que envolve não só a imagem fixa, que ela nunca vai sumir, desaparecer, mas também pede a voz né, vocês estão fazendo um programa, vocês estão filmando né, isso seria talvez impensável a 20 anos, o lugar onde colocar isso, os canais de divulgação né, desses vídeos, então essa facilitação que as plataformas trouxeram e que requerem é muito mais interessante você ver um vídeo hoje na internet do que um monte de foto parada né, a imagem fixa, não significa que a foto vai desaparecer e vai ser vídeo, eu acho que tudo vai coexistir,

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eu vejo uma tendência né das pessoas optarem pelo vídeo especialmente quando a gente fala de jornalismo, de documental né, tem uma tendência a ter mais vídeo hoje em dia, mas é claro que a fotografia vai permanecer, elas vão andar juntas e coexistirem, uma não substitui a outra. Desde o início todo mundo fotografou e todo mundo fotografou muito, claro se você tem um filme de 36 poses você vai ter algumas restrições né, mas as pessoas fotografavam, você lê pessoas que por exemplo “A primeira guerra fotografada em 1851” o grande destaque é que o fotografo conseguiu voltar com 300 negativos, é claro que se eu penso hoje que um garoto de 15 anos faz 300 imagens em meia hora é ridículo, mas você vê que se isso se tornou notícia é porque para a época já era muita imagem né, se não isso não seria um destaque mas o que eu vejo é assim, vamos partir então dessa premissa:

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se fotografa muito. Ok. Nunca se viu tão pouco. O que eu acho que é mais fácil hoje é você errar, é mais barato, eu posso fotografar um cartão de memória inteiro, ficou tudo ruim reformata o cartão e recomeço, com o filme era um pouco mais complicado, então eu vou te dar um pouco como é que eu penso hoje e isso não tem nada a ver com valor, mas sim como as pessoas fazem as imagens né, na época do analógico a pessoa pensava e depois fotografava, estou com 36 poses, já fiz 30 acabo com o filme ou espero alguma coisa? E se acontecer algo e eu não tiver mais filme? E se não der tempo de trocar de câmera? Hoje é exatamente o contrário, a pessoa fotografia e depois pensa, porque depois eu vou ver, depois eu vou tratar, depois eu vou editar, é sempre no depois, então eu acho que o que muda hoje é o próprio fazer fotográfico, talvez se pensasse um pouco mais antes de apertar o botão e em geral, fotógrafo que vem do analógico não fotografa muito, nem hoje.

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