Tiago Santana (E03-T02)

Resenha

Transcrição

A cultura do Brasil é eternizada pela visão de Tiago Santana desde 1989, quando começou sua carreira nas áreas de fotojornalismo e documentação. Seu trabalho e sua história têm muito em comum: enaltecem o Nordeste e o apresentam ao mundo com maestria, com direito a prêmios e reconhecimento internacional.

Fundador da editora Tempo d’Imagem, Tiago Santana conta mais sobre sua vida e projetos no terceiro episódio de No Olhar.

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Acho que a fotografia nunca teve tão presente na vida né das pessoas né, a fotografia nunca teve tão acessível a todos né, hoje qualquer pessoa com um pequeno dispositivo móvel no celular fotografa, a fotografia ganhou uma dimensão tão grande na vida das pessoas e eu acho que o que precisa hoje, eu acho que o fundamental hoje é uma reflexão sobre essa produção, quer dizer, o que é que vai ficar dessas imagens né, dessas bilhões de imagens produzidas,eu acho que a responsabilidade hoje de quem pensa, de quem produz, quem tem digamos assim, uma relação mais direta com a fotografia, seja como profissão ou seja como é espaço de expressão artística e tal,

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eu acho que tem uma , digamos um certo compromisso nessa discussão, quais são as imagens que vão ficar pro futuro né? Eu acho que o cenário é propício para aparecer novos fotógrafos, é mais fácil eu acho, apesar da quantidade, eu acho que quem tem essa preocupação, quem tem essa dedicação né, o acesso as informações né, pra você ter uma ideia, eu sou de uma geração que não tinha internet, então as referências eram mais difíceis né, era através de livros né, o livro fez parte muito da minha vida, da minha formação, então hoje você da um clique na tela tá todas as referências pra você né, então acho que isso possibilita.

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Agora, só pode acontecer um trabalho consistente se tiver mergulho né, é fazer um contratempo em relação ao tempo de hoje que é um tempo digamos assim, um tempo digital, um tempo da informação rápida né, da então existe também um pouco de ansiedade de vontade de avançar mais rápido e de produzir trabalho com velocidades maior, o que pode ser também uma armadilha entendeu? Eu acho que a dedicação, o tempo necessário pra maturar um trabalho, isso é fundamental né, o desafio hoje é não cair nessa armadilha do tempo mesmo né, da rapidez, da resposta imediata né, eu não produzo fotografia pra ter meu trabalho reconhecido nem pra necessariamente, eu acho que eu produzo porque é uma necessidade minha mesmo de, pessoal de falar um pouco desse mundo onde eu vivo, do meu lugar, das minhas experiências de vida, não tem desassociar a fotografia da minha vida né, é...

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e inclusive do meu lugar né, eu de certa forma é, sou... nasci numa assim, especial e particular, no interior do nordeste do Brasil, do interior do Ceará no caso, que é a região do Cariri, que ela fica no Sul do Estado do Ceará, essa região, que ela é famosa pela história do padre Cícero né, pela toda, o centro de religiosidade popular que é, que concentrou ali né, especialmente em Juazeiro do Norte, mas é um lugar que ele é meio, digamos assim, síntese do Nordeste, é um lugar muito rico, tem um artesanato riquíssimo, tem uma série de, tem uma cultura muito forte assim e visualmente é muito impactante, então pra quem nasceu num lugar desse, teve essa experiência de vida né, de os primeiros anos de descobrir o mundo né,

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que é quando você, a sua infância enfim... e a adolescência que é o tempo que eu fiquei nesse lugar, eu acho que essa, o estar ali, o conviver com esse universo e perceber a riqueza disso e o impacto visual que isso teve, o mistério que é o lugar, então tudo isso impactou muito a minha vida e de certa forma foi vital na minha decisão com, pela fotografia, a fotografia é encontro né, e que esse encontro, essa experiência de ta com o outro de, de conhecer lugares e experiências de vida, ela é tão forte que assim, a gente tenta traduzir através da fotografia, é uma tentativa assim, mas no fundo no fundo é, esses encontros são muito mais importantes, muito mais ricos do que a fotografia pode, pode traduzir.

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Eu tenho um processo muito, muito digamos assim, cuidadoso assim, eu não gosto de chegar no lugar e já ir fotografando, já ir... eu vou sentindo um pouco e tentando entrar um pouco na vida, compartilhando, troca, é uma troca, né é um... eu na realidade estou la muito mais pra aprender do que chegar com uma certa arrogância, com um certo, digamos, pré conceitos né, então muitas vezes eu chego nos lugares e a conversa se estende, as vezes esqueço até de fotografar e aí, mas isso vai fluindo, quer dizer, a fotografia realmente não é o que mais importa, esse momento ele é muito maior e quando a gente fotografa, ele não da conta né, a fotografia não da conta, eu não gosto da palavra “jogo”, mas tem uma relação de olhar, de troca de gestos e tal

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que de certa forma vai moldando como você se aproxima, como você chega né, eu por exemplo, sou um fotografo que não ando com muito equipamento, com muita coisa, sou muito né... normalmente é uma câmera, um... Eu não tenho muita, eu tento apesar de que não é necessário, e nem é bom, tentar ser invisível naquele espaço, isso você não consegue né, mas assim, até porque não faz sentido né, e de certa forma a câmera é o, a máquina fotográfica, ela é o elemento que faz essa troca, que possibilita essa, essa aproximação.

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eu acho que a fotografia que me interessa é uma fotografia que não entrega tudo, ela não ta ali pronta, e pronto. Quer dizer, é uma fotografia que de alguma forma ela te, ela te... faz você questionar, faz você pensar, faz você completar né, e de certa forma é uma fotografia mais fragmentada né, é uma fotografia que falta algo, que tem um mistério ali a mais e que faz você de certa forma, porque acho que isso né, você tem que dar margem a outro, a outro... completar outro né, ela já não é mais sua e ela passa para o repertório do outro entender de uma forma diferente, e a fotografia que eu acredito é essa, não precisa ser redundante, não precisa ter 100 fotos pra contar uma história, você pode ter 2 fotos que as vezes pode ser mais potentes do que 50 fotos.

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