Walter Carvalho (E01-T02)

Resenha

Transcrição

Os 44 anos de uma carreira aclamada pela crítica nacional e internacional renderam a Walter Carvalho um rolo de respeito com mais de 60 filmes e uma coleção de prêmios na parede.

Sua visão e dedicação em filmes como Central do Brasil, Carandiru e Cazuza o transformaram em uma grande referência para as próximas gerações, que poderão descobrir mais sobre sua vida neste primeiro episódio da segunda temporada de No Olhar.

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Senta aqui? Eu era garoto, estava passando férias no interior do Estado, na cidade dos meus pais na casa de uma tia e chegou um homem, que me recordo ser um cara alto, de bigode, tinha um bigode enorme assim, e falava com sotaque e ele armou um equipamento que seria uma câmera num tripé, uma coisa como essa assim, e armou aquilo, e eu fiquei olhando aquela, aquele instrumento, aquela câmera, aquela coisa com a lente né, aí cobria com o pano assim, então isso para uma criança é um espetáculo assim, como se isso não bastasse, na hora que ele fotografou estourou um flash de magnésio que ele segurou com a mão assim e estourou o flash de magnésio em pleno dia, aquela coisa assim.

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Ficou azul e ficou aquela fumaça em volta da gente, para mim aquilo era um espetáculo teatral. E como se isso não bastasse, Um tempo depois que aí eu não consigo precisar se foi nas férias seguintes ou se foi naquelas mesmas férias eu vi em cima da cristaleira da minha tia um prato num suporte de madeira e um prato de porcelana com a foto deles impressa no prato, isso realmente mexeu comigo porque eu fiquei “ué, eu vi isso” eles estavam sentados num sofá alguma coisa, num toné assim, num sofá toné de madeira e como é que essa foto foi parar ali?

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Quando eu vim morar no Rio, eu fiz vestibular para a ESDI (Escola Superior de Desenho Industrial), que é a primeira escola de desenho industrial do Brasil, eu conheci um professor de fotografia chamado Roberto Maia que esse sim foi uma coisa quase que decisiva na minha vida porque com o Roberto eu descobri, eu descobri que fotografia não se aprende, que fotografia se pratica e mais do que isso, eu aprendi a gostar de fotografia e nessa de aprender e praticar e de gostar de fotografia estou até hoje, dei sorte porque logo nessa época da escola eu fiz uma foto e ganhei um prêmio com a foto, um concurso da revista Realidade e esse prêmio ele foi muito importante pra mim, tem o aspecto da vaidade de você ganhar um prêmio, mas o mais importante não foi isso, o mais importante é que eu, aquele prêmio falou pra mim da seguinte maneira assim, ele falou assim

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“agora você tem que provar que você merece isso, você tem que dizer porque você está fazendo isso” e aí veio o medo, o medo de fotografar, o medo de continuar e esse medo virou desafio, e aí não parei mais, na verdade eu sou um fotografo, depois eu migrei para o cinema como fotógrafo de cinema, levei um pouco das coisas que eu fazia com fotografia para o cinema e hoje há uma troca né, de lá pra cá e daqui pra lá, mas eu sou um fotografo.***** Ou você vê pela câmera ou você vê pelo olho, essas duas categorias de fotógrafos elas são muito claras pra mim na história, eu me considero um pouco nessa segunda categoria porque para mim fotografar é encher os olhos de sonhos, é deixar se possuir pela imaginação, isso pra mim é fotografar e pra isso eu não preciso da câmera, se você não estiver com a sua câmera olhe a vida, contemple.

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Fotografia é uma ruptura no tempo, no tempo espaço, fotografia é uma ruptura no tempo espaço, se é uma ruptura no tempo e no espaço, é no espaço o que está fora dela, desse recorte, existe, e muitas vezes existe influenciando o que vejo e o que eu não vejo de forma decisiva, um objeto, você nunca vê todas as faces de um objeto, você é... Eu deduzo, eu não estou vendo suas costas, eu não to vendo o peito do seu pé, mas eu deduzo onde está, mas eu não to vendo e pelo fato de eu não ver e te ver como um todo existe uma distância entre o que eu vejo e o que eu deduzo,

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um mistério, que eu chamo de poesia e isso é o que interessa, me interessa o desconhecido e para eu chegar ao desconhecido só tem uma maneira, contemplar o desconhecido, porque ele ta ali, ele ta em volta de mim, ele ta... eu não conheço porque eu apontei a câmera, eu conheço porque eu olhei, eu vi, aquilo me intrigou. Por exemplo, como que eu começo um trabalho de fotografia? Para mim é o caos, eu entro no trabalho, na ideia do trabalho de fotografar e para mim aquilo é o caos, é o caos e eu vou tentando destrinchar, tentando me aproximar daquilo e muitas vezes é bom se afastar, pra depois voltar e passar daquele limite que você deixou né,

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a partir do momento em que você da a volta na ilha é o momento talvez de você pegar o aparelho para fotografar, pra captar aquela imagem, até porque fotografia não existe mais né, fotografia é uma coisa, vou dizer de outra forma, eu acho que a fotografia devia ter outro nome não mais fotografia porque Eu estou substituindo naturalmente pra mim, eu estou substituindo aos poucos no que eu escrevo, no que eu falo, no que eu digo, no que eu trabalho, por imagem, eu produzo imagem, eu não produzo mais fotografia, e a imagem se dá, me empresta sua câmera aqui,

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e a imagem se dá, ela não se dá nem aqui dentro, ela não se dá nem aqui e ela também não se dá aqui, ela se dá na distância que tem entre a ocular e o olho, aqui, essa distância, porque isso não está dentro de mim, está fora de mim, a atitude que vai mecanicamente apertar esse botão aqui é uma decisão do olho, não é uma decisão do dedo, é uma decisão do meu sistema, de todo o meu sistema que vai do pé ao fio do cabelo, esse sistema afetivo, emocional, intelectual de observação que eu olhei antes é que faz eu tomar a atitude e isso está contido nessa distância porque isso não está dentro de mim, o que está dentro de mim é uma coisa que eu não controlo, que é a linguagem.

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Quando você chega em casa que põe a foto no computador ou no laboratório e revela, você descobre que aquilo não existiu, você viu uma coisa do objeto que a mecânica da câmera não captou, ficou só na tua imaginação, porque a memória é viva, a memória é linguagem, a memória somos nós, é você ela, ele, somos nós que somos feitos de vida, as câmeras não, a tecnologia não. Quando eu comecei a me interessar por cinema eu achava que eu ligava a câmera e o filme dentro da bobina, dentro do chassi corria e ia filmando, não é, não é, o filme para e continua, para e continua, para e continua à 48 avos de segundos e 24 quadros por segundos faz 1 minuto, faz 1 movimento, ta certo? Um movimento, a ilusão do movimento, o fenômeno Pi,

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então o cinema também é fotográfico, o meio do cinema é fotográfico, o videografico ele mudou só de nomenclatura, de técnica né, ou é uma varredura ou é um apagamento, que aí transforma aquilo, por isso que se diz que o digital não existe, não tem imagem, porque na verdade tudo acabou numa equação, esse meu braço aqui fotografado ele não é o meu braço, ele é uma parte da equação que digitalmente ta combinado lá dentro dele e que eu preciso de um aparelho para reproduzir isso.O que acontece é que como o cinema é um meio efetivamente fotográfico a fotografia é um meio efetivamente cinematográfico na medida em que os movimentos estão internamente, eu cito aqui mais uma vez o William Klein, tem foto do William Klein que você acha que, se eu chegar em casa agora e abrir o livro de Nova Iorque,

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o famoso livro de Nova Iorque dele, a sensação que eu tenho é que as pessoas que estão ali naquela foto mudaram de lugar, tamanha é a sugestão de movimento que a foto dele provoca em quem observa.E a impermanência do quadro no cinema se multiplica, o que eu falei antes da impermanência no quadro enquanto fotografo still, a impermanência no cinema ela se multiplica porque tem, é visível, é risível e visível o movimento do deslocamento dos objetos dentro do quadro de cinema,

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então a impermanência do quadro se multiplica, a cada instante nunca é o que está sendo feito, então fotografar resumindo a ópera pra mim, fotografar é encher os olhos de sonhos e deixar se possuir pela imaginação, pra mim isso é o resumo do que eu faço, eu não olho mais a vida pelos olhos, eu olho através de um pensamento imagético.

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